Começamos esse encontro lendo letras de músicas e verificamos o quanto de conteúdo ideológico pode conter numa canção. Na ocasião, ouvimos e vimos clipes das músicas: "Go West", do grupo que fez sucesso na década de 80 do século passado, Pet Shop Boys; "Cálice", de Chico Buarque de Holanda; e "Homem na estrada", dos Mc's Racionais.
Letras:
Nessas canções, podemos perceber que as palavras manifestam uma interação com diversos grupos sociais, levando em consideração seu contexto sócio-histórico. Apenas de modo resumido, lembremos que em "Go West" há uma manifestação clara e irônica de fuga de um regime socialista, com imagens e símbolos da URSS, sempre apontando para o Oeste do mundo, ou seja, para a imagem de "liberdade" que os EUA representavam em plena Guerra Fria (bom, era a imagem que estavam vendendo nesta época). Na canção "Cálice", o conteúdo da letra é posto de forma ambígua e "cifrado" justamente para atravessar a censura da Ditadura Militar no Brasil. E em "Homem na estrada", os Racionais contam a história de um homem que é o símbolo de um sujeito da periferia de uma grande cidade brasileira, que vive na "correria" e que não pode parar, mesmo que tendo que fazer o jogo sujo que a desigualdade social lhe impôs. Bom, tudo isso de forma resumida. Mas estas letras são ótimos exemplos de músicas que possuem alguma mensagem e que vale a pena parar, ouvir e refletir.
Entrando no conteúdo de hoje!
Bom, até aqui vimos e discutimos concepções de linguagem, concepções de leitura e de escrita, gramáticas, gêneros e tipos textuais, elementos de cotextualidade e de contextualidade, a exemplo da coesão e da coerência. Todos esses elementos são básicos e necessários para o exercício da leitura e da produção de textos. Agora, relembremos um pouco o que discutimos sobre a ideia de trabalhar a produção textual como uma verdadeira oficina. Devemos lembrar, também, que estamos seguindo a concepção sociointeracionista da linguagem, aquela em que se prioriza o diálogo e a interação entre sujeitos na comunicação verbal. Por isso, a oficina trabalha a produção textual dando ênfase ao seu 'processo' e nos passos que antecedem, que acompanham o ato de escrita e, também, aqueles posteriores à escrita do texto - a sua reescrita.
Vejamos um exemplo de leitura em que identificamos as ideias do escritor antes mesmo da escrita, ou seja, da materialização do texto:
Nesta charge, percebemos que a interação foi priorizada o tempo todo.
- O autor pressupôs que os leitores sabiam a 'ironia' é um componente relevante do gênero discursivo 'charge';
- Pensou no 'conhecimento de mundo' do leitor acerca da imagem do Cristo Redentor na cidade do 'Rio de Janeiro' e que se trata de um cartão postal. Também pensou que esse mesmo leitor sabe da má fama da cidade do Rio quanto a seus altos índices de 'violência' e 'criminalidade';
- Também imaginou que pudesse criar um efeito de sentido interessante ao fazer o 'intertexto' com uma famosa música de Chico Buarque de Holanda ('Cálice');
- Além de tudo, a 'situação comunicativa' do autor e dos leitores é propícia para o efeito de sentido no texto - a 'Páscoa'.
Aqui, vimos que o processo de textualização começou antes da escrita ou da confecção da charge. Assim é quando iniciamos a produção: há o momento de pensar no que escrever, para quem escrever, com que elementos, em que gênero e tipo textual. Durante o texto, também se pensa no que está escrevendo e produz-se revisões constantemente. E na fase final do processo, busca-se fazer uma releitura e pensar no que foi escrito: esse texto alcançou o objetivo? está prolixo? tem coisas que deveria acrescentar? existem coisas que poderiam ser cortadas? Após esse momento, o leitor fará a leitura e a interação estará complementada.
Vejamos, novamente, o quadro de fases e tarefas que estão contidas na ideia de 'oficina de textos', da pesquisadora Irandé Antunes.
Esses itens nos ajudam a pensar a produção textual de uma forma diferente daquela mecanização envolvida na ideia de 'redação'. O texto não é um objeto acabado, ele sempre pode ser revisto e reconstruído. Além disso, a própria revisão e correção de um texto deve levar em consideração todas as fases da oficina, sempre com o intuito de fazer uma orientação pelos melhores caminhos a fim de evitar equívocos futuros. Portanto, até a correção é apenas uma indicação de possibilidades para o produtor, nunca uma interrupção e uma interdição do que não "se pode escrever".
Abaixo, segue um quadro de itens que podem servir de orientação para a correção e revisão. Lembrando que o próprio escritor pode e deve ser o primeiro revisor de seu texto!
Um bom texto se faz com calma, ideias, relações coesas e coerentes e muita, mas muita revisão mesmo!
Referências:
ANTUNES, I. C. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do
método sociológico da linguagem. In: LAHUD, Michel et all
(Trad.). 12. ed. São Paulo: Hucitec, 2006.
MARCUSCHI, L. A. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola
Editorial, 2008.



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