Vamos relembrar o que discutimos sobre os impactos das NTIC's na leitura e na escrita neste momento. Antes, precisamos ter em mente que estamos falando das práticas sociais da leitura e da escrita, portanto, do letramento. Com a Revolução Tecnológica e, sobretudo, com a interação dos indivíduos no contexto virtual, agora, também, podemos falar sobre letramento digital, ou seja, a competência de utilizar as diversas linguagens através das mídias contemporâneas.
"O letramento digital possibilita velocidade no ato de captar, aprender e compartilhar conhecimento, ampliação do dimensionamento perceptual (verbo-visual-auditivo) dos dados apresentados no hipertexto, composição coletiva de hipertextos (co-autoria) + envolvimento + colaboração na construção de saberes." (VILLELA, 2009, p. 38)
Trocando em miúdos, isso quer dizer que com as NTIC's o nível de exigência dos sujeitos leitores e produtores de texto é amplificado por conta da multiplicidade de linguagens num mesmo texto. O letramento digital é a capacidade de ler e escrever com e em várias linguagens de forma simultânea.
É comum ao acessar uma página da internet, a exemplo de uma rádio on line como a da imagem acima, e fazer a leitura do som que está tocando, das imagens publicitárias que aparecem nos cantos da mesma página e, claro, fazer uma leitura verbal das palavras digitadas na mesma página. Todos esses textos se transformam num grande texto.
Outro exemplo de um tipo de texto que exige a capacidade de ler e compreender em diversas linguagens ao mesmo tempo e que tem sido bastante utilizado no contexto das NTIC's é o INFOGRÁFICO. São esses textos que transformam uma informação, a priori, verbal em linguagem visual, seja por meio de gráficos, tabelas, linhas do tempo, diagramas etc.
Diante de todos esses exemplos, vamos relembrar aquela ideia que discutimos no nosso penúltimo encontro sobre a capacidade de ativação que os textos na internet e em outras NTIC's provocam nos indivíduos. Um bom exemplo é a própria escolha das leituras, se compararmos com a televisão aberta. Enquanto podemos acessar a mesma notícia em diversos jornais eletrônicos e ler textos diversos de acordo com as nossas escolhas na internet, ficamos sentados, passivamente, na frente da televisão apenas recebendo as informações que os canais moldam e nos destinam.
Vejamos, novamente, alguns exemplos de possibilidades "ativas" de leitura e escrita na internet, a exemplo dos sites de pesquisa e bibliotecas virtuais, e dos espaços de escrita colaborativa e propositiva como o Wikipedia.
Esses exemplos nos mostram o quanto a leitura e a escrita podem ser práticas que estimulam a atividade dos sujeitos e a sua interação com as múltiplas linguagens.
Além disso, com tantos anos após a criação de um ambiente virtual, repleto de canais de comunicação e interação entre sujeitos, de canais de pesquisa e de busca e produção de conhecimento, podemos falar da emergência dos novos gêneros textuais criados a partir das NTIC's e, sobretudo, com a internet.
Com tantas novas formas de interação a partir das linguagens, com tanto gênero textual novo, também é evidente que se criaram novas variantes da própria linguagem verbal. O exemplo é o chamado INTERNETÊS, essa língua repleta de abreviações de palavras, alongamentos de vogais, onomatopeias etc., que acompanham o ritmo apressado das conversas on line e da linguagem econômica das redes sociais.
Bom, a reflexão sobre a linguagem, a leitura e a escrita não terminou. No último encontro, que relembraremos a seguir, vimos e refletimos, também, alguns pontos negativos relacionados às práticas da linguagem no ambiente virtual e totalmente dependentes das NTIC's. Mas, por enquanto, vamos fechar essa revisão com um trecho do texto de Néstor Garcia Canclini, estudioso de mídias e culturas latino-americanas, acerca das possibilidades que o novo contexto nos oferece no que tange à comunicação e à interação.
"Se trata, ya sabemos, de un proceso de recomposición de la cultura a escala mundial. Hace veinte años todavía podía imaginarse a la televisión como amenaza para la lectura (otros la temían como sustituto del cine o del teatro o de vida pública urbana). Ahora, la convergencia digital está instaurando una integración multimedia que permite ver y escuchar en el celular o la palm audio, imágenes, textos escritos y transmisión de datos. Ni los hábitos actuales de los lectores-espectadores-internautas, ni la fusión de empresas que antes producían por separado cada tipo de mensajes, permite ya concebir como silas separadas los textos, las imágenes y su digitalización." (CANCLINI, 2006, p. 4)
REFERÊNCIAS
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Informes y evaluaciones, Conaculta, México, 2006. Disponível em: <http://nestorgarciacanclini.net/index.php/industrias-y-politicas-culturales/85fragmento-qleer-ya-no-es-lo-que-eraq>; acesso em: 10/2014.
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& SIMÕES, D. (Org.). Ensino
de Português e Novas Tecnologias. Coletânea de textos apresentados no I
SIMELP. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2009, p. 28-43.









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